Falar sobre A História da Homossexualidade na História exige, antes de tudo, um cuidado fundamental: evitar olhar o passado com os olhos do presente. A ideia de que sempre existiram “homossexuais” como identidade fixa é uma construção recente. O desejo entre pessoas do mesmo sexo, no entanto, atravessa toda a experiência humana. O que muda ao longo do tempo não é a existência dessas relações, mas a forma como as sociedades as interpretam, regulam e, em certos momentos, violentam. A História da Homossexualidade é parte fundamental da nossa narrativa.

A História da Homossexualidade no Mundo Antigo
A História da Homossexualidade esteve presente em muitas culturas ao redor do mundo, refletindo as diversas maneiras como o amor e o desejo foram compreendidos e celebrados ao longo dos séculos.
Na Grécia Antiga, especialmente entre os séculos V e IV a.C., relações afetivas e sexuais entre homens eram socialmente reconhecidas em determinados contextos. Um dos exemplos mais conhecidos é a pederastia, relação pedagógica entre um homem adulto (erastés) e um jovem (erómenos). Esse vínculo envolvia educação moral, formação cívica e, em alguns casos, erotismo.
É importante destacar que essa prática não significava que os indivíduos fossem considerados “homossexuais”. Como aponta o historiador David Halperin, os gregos não classificavam as pessoas pelo gênero de quem desejavam, mas pelo papel social exercido na relação. O prestígio estava associado à posição ativa e à masculinidade cidadã, enquanto a passividade excessiva poderia ser vista como desonrosa.
Além disso, o amor entre homens era frequentemente exaltado na filosofia e na literatura. Platão, em O Banquete, descreve o amor masculino como uma forma elevada de ligação espiritual e intelectual, capaz de conduzir à virtude e ao conhecimento.

Na Roma Antiga, a história da homossexualidade era semelhante, porém ainda mais ligada à hierarquia social. O desejo por pessoas do mesmo sexo não era, em si, condenado. O que determinava a aceitação ou reprovação era a posição social e o papel desempenhado.
Um cidadão romano livre poderia manter relações com escravos ou pessoas socialmente inferiores, desde que ocupasse a posição ativa. A masculinidade romana estava associada ao domínio e ao controle. Já um homem livre que assumisse a posição passiva era alvo de desprezo social, não por desejar outro homem, mas por violar o ideal de virilidade romana.
Assim como na Grécia, não existia uma identidade homossexual fixa. As práticas sexuais não definiam quem a pessoa “era”, mas apenas o que fazia em determinados contextos.
Registros de relações homoafetivas também aparecem em outras civilizações antigas. No Egito Antigo, há indícios de vínculos afetivos entre homens em textos e representações artísticas, como o caso de Niankhkhnum e Khnumhotep, dois oficiais retratados de forma íntima em sua tumba.
Na Mesopotâmia, textos legais e religiosos mencionam práticas sexuais diversas, algumas associadas a rituais religiosos, sem uma condenação sistemática semelhante à que surgiria séculos depois com a moral cristã.
Cristianismo e a moralização do desejo

A virada decisiva ocorre com a expansão do cristianismo. A partir da Idade Média, o desejo passa a ser interpretado sob uma lógica moral e teológica. O corpo deixa de ser apenas um espaço de prazer ou convivência social e passa a ser visto como campo de pecado.
Percebe-se, portanto, na história da homossexualidade, a complexidade das relações humanas e o reflexo das normas sociais e religiosas que prevaleciam em diferentes épocas.
John Boswell demonstra que essa repressão não foi imediata nem uniforme. No decorrer da história da homossexualidade, houve tolerância, ambiguidades e até rituais de união entre pessoas do mesmo sexo em partes da Europa cristã. Contudo, a partir do final da Idade Média, intensifica-se a perseguição às chamadas “sodomias”.
O termo sodomia tem origem no episódio bíblico de Sodoma e Gomorra (Livro de Gênesis), interpretado pela teologia medieval como um exemplo da punição divina contra práticas sexuais vistas como desviantes, como: relações sexuais entre homens; relações sexuais entre mulheres (menos mencionadas, mas incluídas); sexo anal, mesmo entre homem e mulher; masturbação; sexo oral; práticas sexuais não reprodutivas; em alguns textos, até relações fora do casamento.
Influenciada por pensadores como Santo Agostinho e Tomás de Aquino, a Igreja defendia que o prazer sexual só era legítimo quando subordinado à reprodução dentro do casamento. Tudo que escapasse disso era visto como: pecado grave; desordem moral; ameaça à ordem divina e social. A partir do século XII, a sodomia deixa de ser apenas um pecado e passa a ser também um crime em muitos reinos europeus.
Portanto, nesse período, o alvo não era uma identidade homossexual — que ainda não existia —, mas atos considerados desviantes. As punições iam de penitências religiosas à morte na fogueira. O desejo começa a ser criminalizado, e o medo se torna um instrumento de controle social.
A invenção do “homossexual”
O século XIX marca uma transformação profunda. Como explica Michel Foucault, a modernidade não apenas reprimiu o desejo: ela o classificou. A medicina, a psiquiatria e o direito criaram a figura do “homossexual” como um tipo humano específico, definido por sua sexualidade.
Antes, na história da homossexualidade, havia práticas condenadas; agora, havia sujeitos considerados desviantes por natureza. A homossexualidade passa a ser tratada como doença, degeneração ou ameaça moral. Esse enquadramento científico legitimou perseguições, internações, terapias forçadas e exclusões sociais.
É nesse contexto que o preconceito ganha um novo formato: não mais a punição por um ato isolado, mas a condenação de toda uma existência.
Século XX: repressão, resistência e morte
O século XX revela o ápice dessa violência institucionalizada na história da homossexualidade. Regimes autoritários, como o nazismo, enviaram milhares de homens homossexuais para campos de concentração, identificados pelo triângulo rosa. Em diversos países, leis criminalizavam relações entre pessoas do mesmo sexo, legitimando prisões, torturas e execuções simbólicas e físicas.
No Brasil, como mostra James Green, a homossexualidade foi perseguida informalmente por meio da polícia, da censura e do estigma social, especialmente durante a ditadura militar. Não era preciso uma lei explícita: bastava o peso da moral, da violência cotidiana e do silêncio.
Ao mesmo tempo, surgem movimentos de resistência. A partir da segunda metade do século XX, grupos LGBTQIAPN+ passam a reivindicar visibilidade, direitos e memória. A revolta de Stonewall, em 1969, simboliza a recusa em continuar existindo apenas nas margens.

Contemporaneidade: disputas de memória e poder
Hoje, avanços legais convivem com retrocessos simbólicos. Direitos civis foram conquistados em muitos países, mas o discurso de ódio permanece, frequentemente sustentado por leituras seletivas da História. Afirma-se que a diversidade sexual é “moderna”, “antinatural” ou “ideológica”, ignorando milênios de experiências humanas.
Judith Butler ajuda a compreender esse cenário ao mostrar como gênero e sexualidade são regulados por normas sociais que produzem exclusões. A violência contra pessoas LGBTQIAPN+ não é um desvio da História, mas um projeto político que escolhe quais vidas merecem ser vividas.
Conclusão: lembrar é resistir
A História da homossexualidade não é linear nem simples. Ela é feita de convivências, silêncios, repressões e resistências. O preconceito que matou — e ainda mata — não nasce do passado em si, mas das interpretações interessadas que tentam apagar a complexidade da experiência humana.
Resgatar essa trajetória não é apenas um exercício acadêmico: é um gesto político. Contar essa História é afirmar que essas vidas sempre existiram, sempre amaram e sempre fizeram parte do mundo.
Negar isso é escolher o esquecimento. E o esquecimento, na História, quase sempre serve à violência.